Categoria: Trabalho e tecnologia

  • Propriedade, poder e infraestrutura digital

    No mundo digital, dizer “isso é meu” pode significar muitas coisas. Propriedade e infraestrutura digital nem sempre caminham juntas: uma pessoa pode controlar uma chave, um arquivo ou um computador sem controlar a infraestrutura que torna tudo isso possível.

    Isto é realmente seu?

    “Meu arquivo.”

    “Minha conta.”

    “Minha carteira.”

    “Meu aplicativo.”

    “Meus bitcoins.”

    Usamos a palavra meu o tempo inteiro, mas ela não descreve sempre o mesmo tipo de relação.

    Você pode ter a senha de uma conta e não possuir a plataforma onde ela existe.

    Pode ser dono de um notebook e depender de uma empresa de telecomunicações para conectá-lo à internet.

    Pode baixar um programa, estudar seu código e modificá-lo sem possuir os computadores onde outras pessoas executam aquele mesmo software.

    Pode controlar uma chave privada de Bitcoin sem possuir nenhuma das máquinas de mineração espalhadas pelo mundo.

    Parece apenas uma questão de palavras.

    Não é.

    Quando falamos em infraestrutura digital, estamos falando das coisas e serviços que precisam existir para uma atividade digital funcionar: programas, computadores, servidores, redes de comunicação, energia, equipamentos, manutenção e trabalho humano.

    Por isso, uma pergunta ajuda mais do que simplesmente perguntar “é meu?”:

    o que exatamente está sob seu controle?

    A resposta muda conforme a parte do sistema que observamos.

    Uma chave abre uma porta, não entrega o prédio

    Comecemos pelo Bitcoin.

    Em muitos usos comuns, uma chave privada permite produzir a assinatura necessária para gastar determinados bitcoins.

    A expressão chave privada pode parecer misteriosa. Na prática, trata-se de uma informação secreta que uma carteira usa para assinar uma transação. A rede consegue verificar a assinatura sem que esse segredo precise ser revelado.

    A documentação técnica do Bitcoin descreve carteiras que usam chaves privadas justamente para assinar transações e gastar os valores correspondentes.

    Isso cria uma capacidade concreta.

    Se as chaves estão sob seu controle, você não precisa pedir a um custodiante que autorize aquele gasto. Custodiante, aqui, é simplesmente uma empresa ou serviço que mantém as chaves e movimenta os bitcoins em nome do cliente — como ocorre quando os valores permanecem sob custódia de uma corretora.

    Mas controlar uma chave não entrega o restante da rede ao seu dono.

    Não lhe dá propriedade sobre os computadores de outros usuários.

    Não lhe entrega equipamentos de mineração.

    Não lhe dá direito sobre a eletricidade consumida por outras máquinas.

    E possuir mais BTC não faz o software dos demais participantes aceitar regras diferentes.

    Um nó completo — o programa usado por quem deseja verificar diretamente a rede — valida blocos segundo as regras que ele próprio executa. Cada nó completo mantém apenas blocos que validou segundo essas regras.

    Essa diferença é importante:

    controlar alguma coisa dentro de uma infraestrutura não significa controlar a infraestrutura inteira.

    A chave abre uma porta.

    Não entrega o prédio.

    Código livre não entrega um computador

    O Bitcoin Core torna essa diferença ainda mais visível.

    Bitcoin Core é uma das principais implementações de software utilizadas para participar da rede Bitcoin. Seu código-fonte pode ser consultado publicamente, e o projeto informa que o software é distribuído sob a licença MIT.

    Uma licença de software estabelece juridicamente o que outras pessoas podem fazer com aquele programa.

    No caso da licença MIT, as permissões são bastante amplas: ela permite usar, copiar, modificar, publicar e distribuir o software, desde que sejam respeitadas as condições da própria licença.

    Isso é uma liberdade concreta.

    Uma pessoa pode inspecionar o código em vez de depender apenas da afirmação de uma empresa sobre o que o programa faz.

    Pode estudar.

    Pode modificar.

    Pode distribuir versões.

    O Projeto GNU usa a expressão software livre para programas cujos usuários possuem quatro liberdades essenciais: executar, estudar e modificar, redistribuir cópias e distribuir versões modificadas. Para estudar e alterar efetivamente o programa, o código-fonte precisa estar disponível.

    Mas nenhuma licença faz uma coisa muito simples.

    Ela não materializa um computador na sua casa.

    Baixar o Bitcoin Core não fornece junto:

    um processador,
    armazenamento,
    energia elétrica,
    conexão à internet,
    tempo para aprender,
    nem alguém para fazer manutenção.

    O próprio projeto descreve o Bitcoin Core como um software que baixa e valida integralmente blocos e transações.

    Mas o programa precisa ser executado em alguma máquina.

    A frase parece óbvia.

    No mundo digital, é fácil esquecê-la.

    A nuvem tem endereço

    “Nuvem” é um ótimo exemplo.

    Guardamos fotos na nuvem.

    Empresas colocam sistemas na nuvem.

    Aplicativos dependem da nuvem.

    O nome é útil porque evita que o usuário precise pensar onde estão os computadores.

    Mas eles estão em algum lugar.

    Grande parte desses serviços depende de datacenters: instalações que concentram servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos responsáveis por processar e transmitir grandes quantidades de dados.

    Esses equipamentos usam eletricidade.

    Produzem calor.

    Precisam de refrigeração.

    Dependem de redes de comunicação.

    Quebram.

    Precisam ser substituídos.

    Precisam de manutenção.

    Em 2025, segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo mundial de eletricidade dos datacenters cresceu cerca de 17%, aproximadamente 70 terawatt-hora a mais do que no ano anterior. Um terawatt-hora, ou TWh, é uma unidade usada para medir volumes muito grandes de energia elétrica.

    Não precisamos transformar esse dado numa história de catástrofe.

    O mesmo relatório mostra que o aumento total da demanda mundial de eletricidade naquele ano foi de cerca de 800 TWh. Os 70 TWh adicionais dos datacenters precisam ser entendidos dentro dessa escala.

    O ponto é mais simples:

    informação digital depende de infraestrutura física.

    Um arquivo pode ser copiado milhões de vezes.

    Um servidor não pode.

    Um chip não pode.

    Um cabo não pode.

    Uma subestação elétrica não pode.

    Um datacenter não pode.

    Quando dizemos que alguma coisa está “na nuvem”, o computador não desapareceu.

    Ele apenas ficou em outro lugar.

    Quando o caminho passa por poucos fornecedores

    Essa dependência material se torna especialmente importante quando algumas partes da infraestrutura estão concentradas em poucas empresas.

    No Reino Unido, a autoridade responsável pela concorrência, a Competition and Markets Authority (CMA), encerrou em 31 de julho de 2025 uma investigação sobre o mercado de serviços de computação em nuvem. Entre suas recomendações, propôs que fossem priorizadas investigações sobre os dois maiores fornecedores, Microsoft e Amazon Web Services, dentro dos poderes britânicos para mercados digitais.

    O caso europeu

    Na União Europeia, a discussão avançou por outro caminho.

    Em novembro de 2025, a Comissão Europeia abriu investigações para determinar se Amazon Web Services (AWS) e Microsoft Azure deveriam ser classificados como gatekeepers de serviços de nuvem pelo Digital Markets Act.

    O nome inglês gatekeeper significa literalmente algo próximo de “guardião do portão”. Na versão portuguesa das instituições europeias aparece também como controlador de acesso.

    A ideia é identificar empresas cujos serviços ocupam uma posição particularmente importante entre outras empresas e seus clientes.

    Em 25 de junho de 2026, a Comissão comunicou sua posição preliminar: AWS e Azure deveriam, em sua avaliação inicial, receber essa classificação. O órgão descreveu os dois como o maior e o segundo maior serviço de nuvem na União Europeia e apontou, entre outros fatores, efeitos de dependência do fornecedor e custos elevados para trocar de serviço.

    Mas a palavra preliminar não pode desaparecer da história.

    Amazon e Microsoft receberam a oportunidade de responder antes de uma decisão final. Na verificação realizada para esta versão, em agosto de 2026, as páginas oficiais do Digital Markets Act ainda apresentam a medida de junho como posição preliminar.

    Esse exemplo não demonstra que “a internet é centralizada”.

    Seria uma conclusão muito maior do que as evidências permitem.

    Mostra algo mais interessante:

    uma infraestrutura pode ser distribuída em uma parte e concentrada em outra.

    Milhões de computadores podem estar conectados enquanto determinada camada de serviços depende fortemente de poucos fornecedores.

    Por isso, sempre falta uma palavra depois de “descentralizado”.

    Descentralizado onde?

    A pergunta de Marx continua material

    É nesse ponto que Marx entra neste artigo.

    Não porque tenha falado sobre datacenters.

    Não falou.

    Nem porque possamos substituir a palavra “fábrica” por “dados” em O Capital e declarar o problema resolvido.

    No capítulo sobre cooperação, Marx analisa uma situação material: muitos trabalhadores atuando juntos dependem também de meios de produção reunidos numa escala correspondente.

    Prédios, instrumentos, matérias-primas e outras condições de trabalho passam a ser utilizados conjuntamente. Marx relaciona expressamente a cooperação em grande escala à concentração dos meios de produção.

    Meios de produção são, de maneira simples, os recursos necessários para produzir: máquinas, ferramentas, instalações, matérias-primas e outras condições materiais da atividade.

    A análise de Marx pertence ao capitalismo de seu tempo.

    A pergunta que trazemos ao presente é nossa:

    quais meios são necessários para determinada atividade digital existir — e quem os controla?

    Não precisamos chamar um datacenter de fábrica.

    Basta reconhecer que um serviço digital também depende de condições materiais.

    No capítulo sobre maquinaria, Marx oferece outra ideia útil: conhecer uma força da natureza não basta para utilizá-la produtivamente em grande escala; é preciso dispor dos meios materiais capazes de colocá-la em funcionamento.

    A conclusão que podemos transportar para o presente é modesta:

    conhecer uma técnica não significa possuir os meios necessários para executá-la.

    Isso valia para uma máquina.

    Vale para um programa.

    Descentralizado onde?

    Voltemos ao Bitcoin.

    Um nó completo pode verificar blocos segundo suas próprias regras.

    Uma pessoa pode controlar as próprias chaves.

    O código do Bitcoin Core pode ser estudado, copiado e modificado.

    Essas capacidades não são iguais, mas todas distribuem algum tipo de poder técnico.

    Agora façamos outras perguntas.

    Quem fabrica os processadores?

    Quem produz equipamentos especializados para mineração?

    Quem fornece conexão à internet?

    Quem fornece energia?

    Onde estão concentrados os serviços de custódia?

    Quem desenvolve as interfaces usadas pela maior parte das pessoas?

    Quem mantém o software?

    Quem possui as máquinas utilizadas por cada participante?

    Não há motivo para esperar que todas essas respostas apresentem o mesmo grau de concentração.

    Por isso, a pergunta:

    “Bitcoin é descentralizado?”

    precisa frequentemente virar várias.

    A validação é descentralizada em que medida?

    E a mineração?

    A custódia?

    O desenvolvimento?

    O hardware?

    O acesso?

    Contar nós pode responder algo importante sobre a distribuição de nós.

    Não mede automaticamente todo o restante.

    Imagine um bairro com milhares de casas atendidas por uma única companhia de eletricidade.

    Contar as casas não informa quantas empresas fornecem energia.

    A medida não está errada.

    Ela apenas responde outra pergunta.

    “Meu bitcoin” não significa “minha rede”

    A palavra propriedade também pode causar confusão aqui.

    Quando alguém diz:

    “esses bitcoins são meus”

    está normalmente falando de sua capacidade de controlar economicamente aqueles valores — diretamente pelas próprias chaves ou, em outros casos, por meio de alguma relação de custódia.

    Isso não significa que cada bitcoin seja uma ação de uma empresa chamada Bitcoin.

    Não existe essa empresa.

    Possuir duas vezes mais BTC não faz alguém possuir duas vezes mais computadores da rede.

    Também não faz os nós de outras pessoas aceitar regras diferentes.

    Bitcoin e participação societária numa empresa são relações diferentes.

    Uma pessoa pode controlar bitcoins sem controlar outros nós.

    Pode executar um nó sem possuir o nó do vizinho.

    Pode copiar o software sem copiar o computador em que outra pessoa o executa.

    Pode participar da rede sem “possuir a rede” como se possuísse uma companhia.

    A palavra propriedade, usada sozinha, esconde essas diferenças.

    Propriedade também é poder de decidir

    Agora imagine uma fotografia armazenada apenas no seu computador.

    Seu controle pode ser bastante direto.

    Coloque a mesma fotografia numa plataforma online.

    O arquivo pode continuar sendo considerado seu, mas o acesso cotidiano passa a depender também da disponibilidade do serviço, das regras da plataforma, da sua conta e da infraestrutura da empresa.

    A propriedade do conteúdo e o controle da infraestrutura não precisam estar nas mesmas mãos.

    O mesmo problema aparece em outras escalas.

    Uma comunidade pode utilizar software livre sem possuir o servidor onde determinada aplicação funciona.

    Uma empresa pode possuir servidores e depender da rede elétrica de terceiros.

    Uma pessoa pode controlar uma chave de Bitcoin e depender de um computador, internet e energia que não controla.

    Por isso, três perguntas ajudam muito mais que uma:

    Quem possui?

    Quem consegue decidir?

    De quem essa decisão depende para funcionar na prática?

    Às vezes as respostas coincidem.

    Muitas vezes não.

    O que significa dizer que algo pertence a todos?

    Chegamos então a uma frase bastante comum na cultura digital:

    “Isso pertence a todos.”

    Mas o que ela quer dizer?

    Todos podem olhar?

    Todos podem copiar?

    Todos podem executar?

    Todos podem modificar?

    Todos são proprietários?

    Todos participam das decisões?

    Todos pagam os custos?

    Todos recebem os benefícios?

    São afirmações completamente diferentes.

    Software livre oferece liberdades concretas sobre o programa: executar, estudar, modificar e redistribuir.

    Isso importa.

    Mas essas liberdades não distribuem automaticamente computadores, datacenters, energia ou propriedade sobre empresas.

    Do mesmo modo, uma rede que permite validação independente distribui determinada capacidade técnica.

    Ela não decide sozinha quem terá dinheiro, equipamento ou conhecimento para exercê-la.

    Nesse ponto, a discussão já não é apenas sobre código.

    É também sobre acesso.

    Financiamento.

    Infraestrutura.

    Conhecimento.

    Propriedade.

    Capacidade de decisão.

    Nada disso torna a tecnologia secundária.

    Pelo contrário.

    Permite identificar qual poder realmente foi distribuído pela tecnologia e qual permanece dependendo das relações existentes ao redor dela.

    Talvez por isso a pergunta mais útil sobre uma infraestrutura digital não seja simplesmente:

    “Isso é meu?”

    Nem apenas:

    “Isso é descentralizado?”

    É uma pergunta um pouco mais incômoda:

    quem possui capacidade real de acessar, manter, modificar e decidir sobre cada parte da infraestrutura — e quem continua dependendo da decisão dos outros?

    Quando chegamos até aí, o mundo digital deixa de parecer imaterial.

    Por baixo da tela reaparecem máquinas, energia, trabalho e propriedade.


    Referências

    Marx, Karl. O Capital, Livro I, capítulo 13 — “Cooperação”. Referência para cooperação, uso conjunto e concentração dos meios de produção.

    Marx, Karl. O Capital, Livro I, capítulo 15 — “Maquinaria e grande indústria”. Referência para a relação entre forças naturais, técnica e aparato material.

    Bitcoin Core. Repositório oficial do projeto. Referência para funcionamento geral do Bitcoin Core e licença MIT.

    Bitcoin Developer Documentation. Block Chain e Wallets. Referência para validação independente e funcionamento de chaves e carteiras.

    GNU Project. What is Free Software? Referência para as quatro liberdades essenciais do software livre.

    Competition and Markets Authority. Cloud services market investigation. Decisão final publicada em 31 de julho de 2025.

    European Commission. Investigações sobre computação em nuvem no Digital Markets Act e posição preliminar de 25 de junho de 2026 sobre AWS e Microsoft Azure.

    International Energy Agency. Global Energy Review 2026 — Electricity demand. Referência para o crescimento do consumo elétrico dos datacenters em 2025.

  • Trabalho, tecnologia e soberania monetária

    Receber o próprio dinheiro sem depender de um intermediário pode aumentar a autonomia de uma pessoa. Mas trabalho e soberania monetária não são a mesma coisa: o pagamento é apenas o fim de uma história que começou muito antes de o saldo aparecer na tela.

    O pagamento caiu

    O trabalhador termina o dia, pega o celular e confere quanto recebeu.

    O dinheiro está lá.

    Nesse momento, parece natural pensar: agora é meu.

    Mas tente voltar algumas horas.

    Quem decidiu quanto aquele trabalho valeria? Quem estabeleceu as condições para realizá-lo? Quem definiu quais tarefas estariam disponíveis? E, se o trabalho depende de um aplicativo, quem controla as regras pelas quais essas tarefas chegam à tela?

    As perguntas ficam ainda mais interessantes quando o pagamento é feito em bitcoin.

    Imagine que o valor seja enviado diretamente para uma carteira controlada pelo próprio trabalhador. Não para um saldo interno de uma empresa, mas para uma carteira cujas chaves estão sob seu controle.

    Depois de receber, ele não precisa pedir a um banco ou corretora que autorize o gasto daqueles bitcoins.

    Há algo importante acontecendo aí.

    Só que o pagamento veio no fim.

    O trabalho já tinha acontecido.

    O que uma chave privada realmente muda

    No Bitcoin, uma carteira capaz de gastar normalmente utiliza chaves privadas.

    Apesar do nome, não se trata de uma chave física. É uma informação secreta usada para criar uma assinatura criptográfica. Essa assinatura pode ser conferida matematicamente sem que seja necessário revelar o segredo que a produziu.

    É assim que uma carteira consegue demonstrar que está cumprindo as condições necessárias para gastar determinados bitcoins. A documentação técnica do Bitcoin descreve justamente carteiras que criam e administram chaves e as utilizam para assinar transações.

    É daí que vem a expressão autocustódia.

    Podemos entendê-la de maneira simples: em vez de entregar a outra empresa o controle necessário para movimentar seus bitcoins, a própria pessoa assume esse controle.

    Compare duas situações.

    Na primeira, alguém compra bitcoin numa corretora e deixa tudo lá. A empresa controla as chaves usadas para movimentar os bitcoins mantidos sob sua custódia. O cliente vê um saldo em sua conta e solicita um saque quando deseja retirar os valores.

    Na segunda, a pessoa recebe os bitcoins diretamente numa carteira cujas chaves controla.

    Não é a mesma situação.

    Um intermediário que antes precisava participar daquele gasto deixou de ser necessário para essa função.

    Isso merece ser levado a sério. Só não precisamos dar à mudança um alcance maior do que ela possui.

    Ter uma chave privada não determina quanto alguém ganha.

    A carteira não negocia jornada de trabalho.

    Também não decide se amanhã haverá serviço disponível.

    Para compreender essas coisas, precisamos voltar ao que aconteceu antes do pagamento.

    O trabalho começa antes do salário

    Marx chama de força de trabalho o conjunto das capacidades físicas e mentais que uma pessoa coloca em ação quando trabalha.

    Em linguagem comum: é a nossa capacidade de trabalhar.

    No capítulo 6 de O Capital, ele analisa as condições históricas em que essa capacidade aparece como algo que pode ser vendido no mercado. O trabalhador é juridicamente livre para dispor de sua força de trabalho, mas não possui, em quantidade suficiente, os meios necessários para simplesmente produzir por conta própria aquilo de que precisa ou aquilo que poderia vender.

    É aí que entram os meios de produção: ferramentas, máquinas, instalações, matérias-primas e outras condições materiais necessárias para produzir.

    Essa distinção ajuda a perceber por que a maneira de receber e a maneira de trabalhar não são a mesma coisa.

    Um empregado pode receber em reais.

    Pode receber em dólares.

    Pode receber em bitcoin.

    O pagamento pode chegar a uma conta bancária ou diretamente a uma carteira própria.

    Nada disso, sozinho, responde quem é dono da empresa, quem organiza o processo produtivo ou quem estabelece as condições em que a capacidade de trabalhar será utilizada.

    Marx também chama atenção para uma particularidade do salário: muitas vezes o trabalho já foi realizado quando o pagamento chega. A força de trabalho foi utilizada antes que seu preço fosse efetivamente pago.

    Nossa cena inicial ganha outro significado quando olhamos dessa maneira.

    O trabalhador abre o celular e encontra o dinheiro.

    Mas uma parte decisiva da relação econômica ocorreu antes daquele saldo existir.

    Quando o gerente vira software

    Essa diferença entre pagamento e controle do trabalho aparece com muita clareza nas plataformas digitais.

    Pense num entregador, motorista ou trabalhador que recebe tarefas por aplicativo.

    Ele pode passar o dia inteiro sem encontrar pessoalmente alguém que se apresente como seu gerente.

    Nem por isso o trabalho deixou de ser organizado.

    Parte das funções que antes poderiam ser executadas diretamente por pessoas pode passar a ser realizada ou auxiliada por sistemas automáticos.

    É o que se costuma chamar de gestão algorítmica.

    O nome parece mais complicado que a ideia.

    A Organização Internacional do Trabalho define gestão algorítmica como o uso de sistemas que aproveitam dados e outras informações para organizar, distribuir, monitorar, supervisionar e avaliar o trabalho. E faz uma observação importante: esses sistemas nem sempre dependem de uma inteligência artificial sofisticada. Podem funcionar também com regras automatizadas relativamente simples.

    Ou seja, o algoritmo não precisa aparecer como um robô na tela.

    Ele pode estar escondido no funcionamento normal do aplicativo.

    O trabalhador abre o programa, recebe uma tarefa, vê determinadas informações e decide se vai aceitá-la. Por trás dessa experiência existem regras e sistemas processando dados e participando da organização do trabalho.

    Quando uma decisão automática afeta o trabalhador

    Em 12 de junho de 2026, a Conferência Internacional do Trabalho adotou a Convenção nº 193 sobre Trabalho Decente na Economia de Plataformas. É a primeira norma internacional do trabalho dedicada especificamente à economia de plataformas.

    A Convenção trata, entre outros assuntos, da remuneração, do uso de sistemas automatizados baseados em algoritmos, da proteção de dados, da suspensão ou desativação de contas e do acesso a mecanismos de revisão quando decisões automatizadas afetam trabalhadores.

    Isso não significa que essas regras já sejam automaticamente aplicáveis em todos os países. A Convenção só vincula os Estados que a ratificam e, nos termos do artigo 27, entra em vigor para cada Estado doze meses após o registro de sua ratificação, uma vez satisfeita a condição inicial de entrada em vigor da própria Convenção. O Estado que a ratifica deve implementá-la por leis, regulamentos, acordos coletivos, decisões judiciais ou outros meios compatíveis com sua prática nacional. Mesmo antes da ratificação, o texto pode servir como referência internacional para políticas públicas e negociação.

    Mas o documento já nos ajuda a enxergar uma separação importante.

    Uma coisa é o pagamento. Outra é o sistema que organiza o acesso ao trabalho.

    Podem aparecer na mesma tela.

    Continuam sendo problemas diferentes.

    A máquina nunca vem sozinha

    Não foi o smartphone que criou a pergunta sobre quem controla a tecnologia utilizada no trabalho.

    No século XIX, Marx já dedicava um longo capítulo de O Capital à maquinaria e à grande indústria.

    Seria errado resumir aquilo dizendo que “Marx era contra as máquinas”.

    O argumento é muito mais interessante.

    Marx reconhece o enorme aumento de produtividade proporcionado pela maquinaria. Seu objeto de investigação é a maneira como essas capacidades técnicas são utilizadas quando a maquinaria se encontra sob relações capitalistas de produção.

    Ele analisa, por exemplo, situações em que o desenvolvimento das máquinas veio acompanhado de prolongamento da jornada de trabalho e, posteriormente, de aumento da intensidade do trabalho — mais esforço concentrado no mesmo período.

    Há uma diferença decisiva aí:

    uma coisa é a capacidade da tecnologia; outra é a relação social dentro da qual essa capacidade é utilizada.

    Uma máquina pode poupar esforço.

    Um programa pode organizar informações numa velocidade impossível para uma pessoa.

    Um aplicativo pode aproximar quem procura um serviço de quem está disposto a realizá-lo.

    Nenhuma dessas características responde, por si só, quem será dono da infraestrutura, como seus benefícios serão distribuídos ou quem terá poder para alterar suas regras.

    Por isso, perguntar se uma tecnologia é simplesmente “boa” ou “ruim” costuma levar pouco longe.

    Perguntas melhores são mais concretas:

    Quem controla?

    Para qual finalidade?

    Quem pode contestar uma decisão?

    Quem fica com os ganhos obtidos pelo aumento da produtividade?

    Essas questões faziam sentido diante de uma fábrica mecanizada.

    Continuam fazendo sentido diante de uma plataforma digital.

    Nem toda autonomia é soberania

    Chegamos então à palavra mais difícil do título deste artigo:

    soberania monetária.

    No debate sobre Bitcoin, ela é usada muitas vezes de forma bastante ampla. Controlar uma carteira pode ser descrito, por exemplo, como tornar-se “monetariamente soberano”.

    Mas soberania monetária possui também um significado político e institucional muito mais abrangente.

    Em um discurso de junho de 2026, Piero Cipollone, membro da Diretoria Executiva do Banco Central Europeu, definiu soberania monetária como controle sobre o dinheiro de banco central em relação à sua emissão, ao seu valor e ao seu papel nos pagamentos e nas finanças. A escala dessa definição é coletiva e institucional, não a de uma pessoa que possui uma chave privada.

    Então precisamos tomar cuidado para não usar a mesma palavra para fenômenos muito diferentes.

    Neste artigo, vou chamar de autonomia monetária individual algo mais limitado: a capacidade de uma pessoa controlar diretamente determinados ativos ou pagamentos, reduzindo sua dependência de um custodiante.

    Essa expressão é apenas uma ferramenta explicativa deste texto.

    Não é uma categoria de Marx.

    Não estou apresentando uma definição jurídica oficial.

    Também não estou dizendo que existe consenso acadêmico em torno desse nome.

    Ela serve aqui para evitar uma confusão.

    Uma pessoa pode ampliar sua autonomia sobre determinada função do dinheiro sem adquirir soberania sobre o sistema monetário.

    Pode manter bitcoin em autocustódia e continuar tendo sua renda definida por outra pessoa.

    Pode realizar determinados pagamentos sem um banco e continuar submetida às leis do país onde vive.

    Pode controlar uma chave privada e não possuir qualquer poder sobre a plataforma através da qual encontra trabalho.

    São escalas diferentes.

    Três histórias dentro do mesmo pagamento

    Voltemos ao celular do começo.

    O dinheiro chegou.

    Mas há pelo menos três histórias escondidas naquele saldo.

    A primeira é a história do dinheiro depois de recebido.

    Se os bitcoins estão em autocustódia, o trabalhador possui controle direto das chaves necessárias para movimentá-los. Nesse aspecto, sua posição é diferente daquela de alguém que depende integralmente de um custodiante.

    A segunda história é a da remuneração.

    Quem decidiu quanto aquele trabalho renderia?

    Houve negociação?

    Contrato?

    Tabela?

    Acordo coletivo?

    Uma regra da plataforma?

    A carteira recebe o resultado dessa decisão. Ela não toma a decisão.

    A terceira história começa ainda antes: quem controla o acesso ao trabalho?

    Se uma pessoa depende de uma plataforma para encontrar clientes ou receber tarefas, as regras e os sistemas dessa plataforma podem influenciar de maneira relevante sua atividade. É justamente por isso que a nova Convenção nº 193 trata tanto de remuneração quanto do impacto de sistemas automatizados sobre trabalhadores, além de suspensão, desativação e acesso a mecanismos de revisão.

    Bitcoin pode alterar profundamente a primeira história em determinadas circunstâncias.

    Ele não escreve automaticamente as outras duas.

    O que mudou, afinal?

    “Soberania” é uma palavra sedutora porque parece resolver muita coisa de uma vez.

    Talvez seja justamente esse o problema.

    Se um trabalhador deixa de depender de um custodiante e passa a controlar diretamente suas chaves, houve uma mudança.

    Vale dizer qual.

    Uma dependência específica foi reduzida.

    Se consegue movimentar os bitcoins recebidos sem pedir autorização àquela empresa, ganhou capacidade de decidir naquela função.

    Não é imaginário.

    Também não precisa ser apresentado como emancipação completa para ser importante.

    Agora olhe para o restante.

    Se a empresa continua pertencendo aos mesmos proprietários, se a plataforma continua controlando sua infraestrutura, se o trabalhador continua sem participar da definição da remuneração ou se depende daquele sistema para encontrar tarefas, existem outros lugares onde as decisões permanecem concentradas.

    As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

    É possível considerar importante o controle sobre o próprio dinheiro e perguntar quem controla o trabalho que tornou aquele dinheiro possível.

    É possível reconhecer propriedades reais do Bitcoin sem transformá-las numa teoria completa da sociedade.

    E é possível criticar relações de trabalho sem tratar a forma de custódia do dinheiro como se fosse irrelevante.

    Essas posições não precisam se excluir.

    Uma chave abre uma porta

    O trabalhador olha novamente para o saldo.

    Agora conseguimos dizer um pouco melhor o que aconteceu.

    Se controla as próprias chaves, existe uma porta que ele consegue abrir sem pedir autorização a um custodiante.

    Isso importa.

    Mas não é a mesma porta que define seu salário.

    Não é a porta que controla a plataforma.

    Não é a porta da empresa.

    Muito menos aquela que determina as regras monetárias de uma sociedade inteira.

    Uma tecnologia pode aumentar a capacidade de decisão de uma pessoa em determinado ponto da vida econômica sem reorganizar tudo o que existe ao redor.

    Talvez, então, a pergunta mais interessante não seja:

    “Bitcoin torna o trabalhador soberano?”

    A pergunta que realmente ajuda é mais difícil:

    sobre o que, exatamente, ele passou a ter mais poder — e quem continua decidindo todo o resto?


    Referências

    Marx, Karl. O Capital, Livro I, capítulo 6 — “Compra e venda da força de trabalho”. Referência para força de trabalho, condições de sua venda e relação entre trabalho realizado e pagamento.

    Marx, Karl. O Capital, Livro I, capítulo 15 — “Maquinaria e grande indústria”. Referência para maquinaria, produtividade, jornada e intensificação do trabalho.

    Bitcoin Developer Documentation. Wallets. Documentação sobre chaves privadas, carteiras e assinatura de transações.

    Organização Internacional do Trabalho. Algorithmic management in the workplace. Referência para a definição e as funções da gestão algorítmica.

    Organização Internacional do Trabalho. Decent Work in the Platform Economy Convention, 2026 (No. 193). Adotada em 12 de junho de 2026.

    Organização Internacional do Trabalho. How will the new Convention No. 193 promote decent work in the platform economy? Material explicativo sobre alcance, sistemas automatizados, remuneração, mecanismos de revisão e ratificação.

    Cipollone, Piero. The foundations of national sovereignty — the role of central bank money. Discurso de 19 de junho de 2026, publicado pelo BIS em 30 de junho de 2026. Referência utilizada apenas para delimitar o sentido institucional de soberania monetária.