CONCEITO
Força de trabalho
Força de trabalho é o conjunto das capacidades físicas e intelectuais existentes numa pessoa e que podem ser colocadas em atividade no processo de produção. Na análise marxiana do capitalismo, ela assume uma determinação decisiva quando aparece como mercadoria vendida pelo trabalhador ao proprietário das condições de produção.
DEFINIÇÃO ESSENCIAL
O trabalhador vende sua capacidade de trabalhar, não trabalho já realizado
Força de trabalho não é uma coisa separada da pessoa nem uma quantidade de trabalho já executada. É a capacidade humana de trabalhar, cuja forma econômica depende das relações sociais em que essa capacidade é colocada à disposição de outros.
Marx denomina força de trabalho o conjunto das capacidades físicas e intelectuais que existem na pessoa viva e que ela coloca em ação ao produzir valores de uso. Sob determinadas condições históricas, essa capacidade pode aparecer como mercadoria: o trabalhador dispõe juridicamente de si mesmo e pode vender temporariamente sua força de trabalho, mas encontra-se separado dos meios necessários para produzir autonomamente. Assim, força de trabalho é capacidade de trabalhar, enquanto trabalho é essa capacidade efetivamente consumida e realizada no processo produtivo.
O trabalhador não vende sua pessoa
Na relação salarial, o trabalhador vende temporariamente o uso de sua força de trabalho, não sua existência como pessoa. Essa distinção é essencial porque a capacidade de trabalhar permanece vinculada ao indivíduo vivo, enquanto sua utilização é contratada por determinado período e sob determinadas relações sociais.
EM TERMOS SIMPLES
Capacidade, trabalho e salário não são a mesma coisa
Imagine alguém contratado para trabalhar oito horas. Antes do início da jornada, as oito horas de atividade concreta ainda não foram realizadas. O que existe é uma pessoa capaz de trabalhar e um acordo que permite ao empregador utilizar essa capacidade durante determinado período. Separar esses momentos ajuda a compreender o que efetivamente é comprado na relação salarial.
Força de trabalho é capacidade, não trabalho já realizado
Uma pessoa possui conhecimentos, habilidades, energia e capacidades que podem ser colocadas em atividade; isso constitui sua força de trabalho. Quando essas capacidades são efetivamente utilizadas numa tarefa, temos trabalho realizado. Portanto, possuir capacidade de trabalhar e estar trabalhando são situações distintas, embora uma dependa da outra.
A força de trabalho só aparece como mercadoria sob certas condições
Para vender sua força de trabalho, o trabalhador precisa poder dispor juridicamente dela e, ao mesmo tempo, não possuir de forma suficiente os meios de produção necessários para produzir autonomamente sua subsistência. Essa combinação cria a situação em que ele entra no mercado como vendedor de sua própria capacidade de trabalhar. A força de trabalho não é mercadoria por natureza; torna-se mercadoria dentro de relações históricas específicas.
O valor da força de trabalho possui determinação social e histórica
O valor da força de trabalho relaciona-se ao valor dos meios necessários à sua reprodução, mas essa reprodução não se reduz à sobrevivência física mínima. Alimentação, moradia, vestuário, formação e outras necessidades podem incorporar determinações históricas e sociais diferentes conforme tempo e lugar. Por isso, o valor da força de trabalho não pode ser reduzido a uma quantidade biológica fixa necessária para manter uma pessoa viva.
COMO FUNCIONA
Como a força de trabalho entra no processo capitalista de produção
A força de trabalho torna-se decisiva para o capital quando aparece no mercado como uma capacidade que pode ser contratada por determinado período e depois consumida no processo produtivo. É nessa passagem da capacidade disponível para o trabalho efetivamente realizado que se torna possível compreender a produção de novo valor e de mais-valia.
01
O trabalhador apresenta sua força de trabalho no mercado
Para que a força de trabalho apareça como mercadoria, o trabalhador precisa poder dispor de sua própria capacidade de trabalhar e encontrar um comprador interessado em utilizá-la. Ao mesmo tempo, a separação em relação aos meios de produção impede que essa capacidade seja empregada autonomamente em escala suficiente para reproduzir sua existência, levando o trabalhador a vendê-la no mercado. Essa condição histórica combina liberdade jurídica para contratar com separação econômica das condições objetivas de produção.
02
O capital compra temporariamente o uso dessa capacidade
O capitalista não compra definitivamente a pessoa do trabalhador, mas adquire, mediante a relação salarial, o direito de utilizar sua força de trabalho durante determinado período e sob determinadas condições. Como ocorre com outras mercadorias, a força de trabalho possui um valor; porém, sua particularidade está no fato de que seu valor e o valor que pode ser produzido durante seu consumo não são necessariamente iguais. A relação salarial permite ao capital comandar temporariamente o uso produtivo dessa capacidade sem transformar juridicamente o trabalhador em propriedade do comprador.
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A força de trabalho é consumida quando se transforma em trabalho vivo
Depois de contratada, a força de trabalho só realiza sua utilidade quando o trabalhador efetivamente trabalha utilizando meios de produção e atuando sobre objetos de trabalho. Nesse momento, a capacidade de trabalhar transforma-se em trabalho vivo realizado, participando da produção de valores de uso e, sob produção mercantil capitalista, de novo valor. Por isso, força de trabalho e trabalho pertencem a momentos diferentes: uma é capacidade disponível; o outro é a atividade efetivamente realizada pelo trabalhador.
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O trabalho realizado pode produzir valor superior ao valor da força de trabalho
O valor da força de trabalho relaciona-se às condições socialmente necessárias para sua reprodução, mas o capitalista compra seu uso por uma jornada cuja duração pode permitir que o trabalhador produza novo valor além desse equivalente. Uma parte da jornada pode reproduzir o valor da força de trabalho e outra constituir mais-trabalho, produzindo mais-valia apropriada pelo capital. Assim, a capacidade de produzir valor superior ao próprio valor da força de trabalho é a particularidade que torna essa mercadoria decisiva para explicar a valorização capitalista.
O valor da força de trabalho e o valor produzido por seu uso são grandezas diferentes
O capital não precisa comprar a força de trabalho abaixo de seu valor para que exista mais-valia. Mesmo quando seu equivalente é pago nas condições normais da relação salarial, o trabalho realizado durante a jornada pode produzir valor superior ao necessário para reproduzir essa capacidade de trabalhar.
DISTINÇÕES IMPORTANTES
Força de trabalho não é sinônimo de trabalhador, trabalho ou salário
A categoria força de trabalho ocupa uma posição específica na análise marxiana e precisa ser separada tanto da pessoa que trabalha quanto da atividade realizada e da forma salarial pela qual essa relação aparece. Essas distinções são decisivas para compreender valor, exploração e mais-valia.
Força de trabalho não é o trabalhador
A força de trabalho é uma capacidade existente na pessoa, mas não é idêntica à própria pessoa. O trabalhador possui corpo, necessidades, relações sociais, conhecimentos e uma existência que não se reduz à capacidade que vende temporariamente no mercado. Por isso, comprar força de trabalho não significa comprar o trabalhador como pessoa: o objeto da relação salarial é o uso temporário de sua capacidade de trabalhar sob determinadas condições.
Força de trabalho não é trabalho realizado
Força de trabalho designa a capacidade de trabalhar; trabalho é essa capacidade colocada efetivamente em atividade no processo produtivo. Antes da jornada, existe uma capacidade disponível; durante a produção, essa capacidade é consumida como trabalho vivo. Essa diferença é fundamental porque o valor da força de trabalho e o valor produzido pelo trabalho realizado podem não coincidir, tornando possível a produção de mais-valia.
Valor da força de trabalho não é simplesmente o salário observado
O salário é a forma monetária pela qual a relação entre capital e força de trabalho aparece, mas não deve ser tratado como uma medida automaticamente transparente do valor dessa mercadoria. O valor da força de trabalho relaciona-se às condições socialmente necessárias de sua reprodução, enquanto o salário efetivamente pago pode variar por razões históricas, sociais, institucionais e de mercado. Portanto, salário e valor da força de trabalho estão relacionados, mas não são categorias idênticas nem necessariamente coincidem de forma imediata.
Vender força de trabalho não é vender a própria pessoa
Na relação salarial capitalista, o trabalhador aliena temporariamente o uso de sua força de trabalho, preservando juridicamente sua condição de pessoa livre capaz de celebrar e encerrar contratos dentro das condições existentes. Essa relação é diferente de formas em que o próprio trabalhador pertence juridicamente a outro agente. Assim, a mercantilização da força de trabalho pressupõe que a capacidade de trabalhar possa ser contratada por determinado período sem que a pessoa inteira se transforme juridicamente em mercadoria.
LIMITES E CONTROVÉRSIAS
Nem toda participação no ecossistema Bitcoin é venda de força de trabalho
O ecossistema Bitcoin reúne empresas, trabalhadores assalariados, desenvolvedores, operadores de infraestrutura, mineradores independentes e colaboradores voluntários. Essas atividades podem envolver trabalho humano real, mas não pertencem automaticamente à mesma relação social nem significam que a força de trabalho esteja sendo vendida “ao Bitcoin”.
01
O empregado de uma mineradora vende força de trabalho ao empregador, não ao protocolo
Quando uma empresa de mineração contrata técnicos, engenheiros, operadores, administradores ou outros trabalhadores, a relação salarial se estabelece entre o trabalhador e a organização que compra temporariamente sua força de trabalho. O protocolo Bitcoin não é uma pessoa jurídica que celebra o contrato nem um capitalista que compra essa capacidade. Portanto, o fato de o trabalho estar inserido numa atividade ligada ao Bitcoin não significa que o trabalhador venda sua força de trabalho “à rede” ou “ao protocolo”.
02
ASICs e hashrate não possuem força de trabalho
Um ASIC possui capacidade computacional e pode executar operações de hash em grande escala, mas não possui capacidades físicas e intelectuais humanas que possam aparecer no mercado como mercadoria. Da mesma forma, hashrate mede desempenho computacional, não quantidade de força de trabalho disponível. Equipamentos podem funcionar como meios de produção e, sob relações capitalistas, como parte do capital constante, mas máquinas não vendem força de trabalho nem transformam sua capacidade técnica em trabalho vivo.
03
Participar do Bitcoin não significa vender força de trabalho ao sistema
Rodar um nó, utilizar uma carteira, minerar por conta própria, desenvolver ferramentas ou contribuir para a infraestrutura do Bitcoin são atividades distintas e podem ocorrer sob relações sociais muito diferentes. Algumas podem ser realizadas como trabalho assalariado; outras, por conta própria, de forma voluntária, cooperativa ou como parte de atividades empresariais. Por isso, a participação técnica numa rede descentralizada não determina, sozinha, se existe venda de força de trabalho, relação salarial ou exploração capitalista.
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Contribuições em software livre podem ocorrer sob relações de produção diferentes
Desenvolvimento de software livre não constitui uma única forma social de trabalho: uma contribuição pode ser realizada por empregado de uma empresa, profissional independente, pesquisador, voluntário ou participante financiado por doações e outras formas de sustentação. O caráter aberto do código não informa automaticamente quem controla as condições de trabalho, como o desenvolvedor se reproduz materialmente ou se sua força de trabalho foi vendida a um capital. Portanto, software livre não é sinônimo de trabalho assalariado, mas também não é sinônimo de ausência de relações capitalistas.
A relação social precisa ser identificada antes da categoria
Saber que uma pessoa trabalha com Bitcoin, mineração ou software não basta para determinar se ela vende força de trabalho. É preciso identificar quem organiza a atividade, quem controla os meios utilizados, como o trabalhador obtém seus meios de vida e sob qual relação sua capacidade de trabalhar é colocada em atividade.
CONTINUE A EXPLORAÇÃO
Conceitos relacionados
Força de trabalho se relaciona diretamente com trabalho, capital, mais-valia e meios de produção. A automação pode transformar a forma como essa capacidade é demandada e utilizada, enquanto diferentes atividades no ecossistema Bitcoin precisam ser analisadas segundo a relação social concreta para determinar quando existe efetivamente venda de força de trabalho.
Trabalho
Atividade humana realizada quando capacidades físicas e intelectuais são efetivamente colocadas em ação no processo produtivo. Força de trabalho é capacidade de trabalhar; trabalho é o consumo efetivo dessa capacidade em atividade.
Capital
Valor colocado em movimento com a finalidade de retornar aumentado. Na produção capitalista, o capital compra meios de produção e força de trabalho, mas é o consumo desta última como trabalho vivo que permite compreender a produção de novo valor.
Mais-valia
Parcela de novo valor produzida pelo trabalhador além do equivalente ao valor de sua força de trabalho e apropriada pelo capital. A categoria depende justamente da distinção entre o valor da capacidade comprada e o valor produzido durante seu uso.
Meios de produção
Condições objetivas utilizadas no processo de trabalho, como objetos de trabalho, ferramentas, máquinas e instalações. A separação dos trabalhadores desses meios constitui uma condição fundamental para que a força de trabalho apareça no mercado como mercadoria sob relações capitalistas.
Automação
Transformação de tarefas e processos por máquinas, software e outros sistemas técnicos. A automação pode alterar a demanda, a composição e as condições de utilização da força de trabalho, mas máquinas não possuem força de trabalho nem transformam capacidade técnica em trabalho vivo; elas continuam ocupando posições distintas no processo produtivo.
Bitcoin
Protocolo, rede e unidade monetária em torno dos quais existem atividades econômicas e técnicas muito diferentes. Trabalhar numa empresa relacionada ao Bitcoin pode envolver venda de força de trabalho, mas participar da rede ou utilizar o protocolo não constitui, por si só, uma relação salarial com o Bitcoin.
FONTES E DOCUMENTAÇÃO
Referências para aprofundamento
As referências abaixo acompanham a força de trabalho desde as condições históricas que permitem sua venda como mercadoria até seu consumo no processo produtivo, sua relação com a produção de mais-valia e a forma salarial pela qual essa relação aparece na circulação.
01
O Capital, Livro I — Compra e venda da força de trabalho
Marx desenvolve as condições necessárias para que a força de trabalho apareça como mercadoria: o trabalhador precisa poder dispor de sua própria capacidade e, simultaneamente, encontrar-se separado das condições objetivas necessárias à produção independente. A passagem também introduz o valor da força de trabalho e sua reprodução como determinações sociais e históricas.
Karl Marx · O Capital · Livro I · Capítulo 4, seção 3
02
O Capital, Livro I — Processo de trabalho
Marx examina o momento em que a capacidade adquirida é efetivamente colocada em ação no processo produtivo, reunindo atividade humana, objeto de trabalho e meios de trabalho. A referência ajuda a compreender a passagem fundamental de força de trabalho como capacidade para trabalho vivo efetivamente realizado.
Karl Marx · O Capital · Livro I · Capítulo 5, seção 1
03
O Capital, Livro I — Taxa da mais-valia
A análise mostra como o trabalho realizado durante a jornada pode produzir valor superior ao equivalente da força de trabalho, permitindo distinguir trabalho necessário e mais-trabalho. Essa relação evidencia por que o valor da força de trabalho não determina antecipadamente toda a quantidade de valor que seu consumo produtivo pode criar.
Karl Marx · O Capital · Livro I · Capítulo 7, seção 1
04
O Capital, Livro I — A transformação do valor da força de trabalho em salário
Marx examina como o valor ou preço da força de trabalho aparece na forma salário como se o próprio trabalho estivesse sendo diretamente comprado e pago. Essa aparência é decisiva para compreender por que força de trabalho, trabalho realizado e salário precisam permanecer como categorias distintas.
Karl Marx · O Capital · Livro I · Capítulo 17
Força de trabalho é uma capacidade humana inserida em relações sociais
Máquinas, protocolos e sistemas computacionais podem ampliar, organizar ou substituir determinadas operações, mas não possuem força de trabalho no sentido marxiano. A categoria exige uma pessoa viva cuja capacidade de trabalhar seja colocada em atividade sob relações sociais determinadas.