Propriedade, poder e infraestrutura digital

No mundo digital, dizer “isso é meu” pode significar muitas coisas. Propriedade e infraestrutura digital nem sempre caminham juntas: uma pessoa pode controlar uma chave, um arquivo ou um computador sem controlar a infraestrutura que torna tudo isso possível.

Isto é realmente seu?

“Meu arquivo.”

“Minha conta.”

“Minha carteira.”

“Meu aplicativo.”

“Meus bitcoins.”

Usamos a palavra meu o tempo inteiro, mas ela não descreve sempre o mesmo tipo de relação.

Você pode ter a senha de uma conta e não possuir a plataforma onde ela existe.

Pode ser dono de um notebook e depender de uma empresa de telecomunicações para conectá-lo à internet.

Pode baixar um programa, estudar seu código e modificá-lo sem possuir os computadores onde outras pessoas executam aquele mesmo software.

Pode controlar uma chave privada de Bitcoin sem possuir nenhuma das máquinas de mineração espalhadas pelo mundo.

Parece apenas uma questão de palavras.

Não é.

Quando falamos em infraestrutura digital, estamos falando das coisas e serviços que precisam existir para uma atividade digital funcionar: programas, computadores, servidores, redes de comunicação, energia, equipamentos, manutenção e trabalho humano.

Por isso, uma pergunta ajuda mais do que simplesmente perguntar “é meu?”:

o que exatamente está sob seu controle?

A resposta muda conforme a parte do sistema que observamos.

Uma chave abre uma porta, não entrega o prédio

Comecemos pelo Bitcoin.

Em muitos usos comuns, uma chave privada permite produzir a assinatura necessária para gastar determinados bitcoins.

A expressão chave privada pode parecer misteriosa. Na prática, trata-se de uma informação secreta que uma carteira usa para assinar uma transação. A rede consegue verificar a assinatura sem que esse segredo precise ser revelado.

A documentação técnica do Bitcoin descreve carteiras que usam chaves privadas justamente para assinar transações e gastar os valores correspondentes.

Isso cria uma capacidade concreta.

Se as chaves estão sob seu controle, você não precisa pedir a um custodiante que autorize aquele gasto. Custodiante, aqui, é simplesmente uma empresa ou serviço que mantém as chaves e movimenta os bitcoins em nome do cliente — como ocorre quando os valores permanecem sob custódia de uma corretora.

Mas controlar uma chave não entrega o restante da rede ao seu dono.

Não lhe dá propriedade sobre os computadores de outros usuários.

Não lhe entrega equipamentos de mineração.

Não lhe dá direito sobre a eletricidade consumida por outras máquinas.

E possuir mais BTC não faz o software dos demais participantes aceitar regras diferentes.

Um nó completo — o programa usado por quem deseja verificar diretamente a rede — valida blocos segundo as regras que ele próprio executa. Cada nó completo mantém apenas blocos que validou segundo essas regras.

Essa diferença é importante:

controlar alguma coisa dentro de uma infraestrutura não significa controlar a infraestrutura inteira.

A chave abre uma porta.

Não entrega o prédio.

Código livre não entrega um computador

O Bitcoin Core torna essa diferença ainda mais visível.

Bitcoin Core é uma das principais implementações de software utilizadas para participar da rede Bitcoin. Seu código-fonte pode ser consultado publicamente, e o projeto informa que o software é distribuído sob a licença MIT.

Uma licença de software estabelece juridicamente o que outras pessoas podem fazer com aquele programa.

No caso da licença MIT, as permissões são bastante amplas: ela permite usar, copiar, modificar, publicar e distribuir o software, desde que sejam respeitadas as condições da própria licença.

Isso é uma liberdade concreta.

Uma pessoa pode inspecionar o código em vez de depender apenas da afirmação de uma empresa sobre o que o programa faz.

Pode estudar.

Pode modificar.

Pode distribuir versões.

O Projeto GNU usa a expressão software livre para programas cujos usuários possuem quatro liberdades essenciais: executar, estudar e modificar, redistribuir cópias e distribuir versões modificadas. Para estudar e alterar efetivamente o programa, o código-fonte precisa estar disponível.

Mas nenhuma licença faz uma coisa muito simples.

Ela não materializa um computador na sua casa.

Baixar o Bitcoin Core não fornece junto:

um processador,
armazenamento,
energia elétrica,
conexão à internet,
tempo para aprender,
nem alguém para fazer manutenção.

O próprio projeto descreve o Bitcoin Core como um software que baixa e valida integralmente blocos e transações.

Mas o programa precisa ser executado em alguma máquina.

A frase parece óbvia.

No mundo digital, é fácil esquecê-la.

A nuvem tem endereço

“Nuvem” é um ótimo exemplo.

Guardamos fotos na nuvem.

Empresas colocam sistemas na nuvem.

Aplicativos dependem da nuvem.

O nome é útil porque evita que o usuário precise pensar onde estão os computadores.

Mas eles estão em algum lugar.

Grande parte desses serviços depende de datacenters: instalações que concentram servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos responsáveis por processar e transmitir grandes quantidades de dados.

Esses equipamentos usam eletricidade.

Produzem calor.

Precisam de refrigeração.

Dependem de redes de comunicação.

Quebram.

Precisam ser substituídos.

Precisam de manutenção.

Em 2025, segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo mundial de eletricidade dos datacenters cresceu cerca de 17%, aproximadamente 70 terawatt-hora a mais do que no ano anterior. Um terawatt-hora, ou TWh, é uma unidade usada para medir volumes muito grandes de energia elétrica.

Não precisamos transformar esse dado numa história de catástrofe.

O mesmo relatório mostra que o aumento total da demanda mundial de eletricidade naquele ano foi de cerca de 800 TWh. Os 70 TWh adicionais dos datacenters precisam ser entendidos dentro dessa escala.

O ponto é mais simples:

informação digital depende de infraestrutura física.

Um arquivo pode ser copiado milhões de vezes.

Um servidor não pode.

Um chip não pode.

Um cabo não pode.

Uma subestação elétrica não pode.

Um datacenter não pode.

Quando dizemos que alguma coisa está “na nuvem”, o computador não desapareceu.

Ele apenas ficou em outro lugar.

Quando o caminho passa por poucos fornecedores

Essa dependência material se torna especialmente importante quando algumas partes da infraestrutura estão concentradas em poucas empresas.

No Reino Unido, a autoridade responsável pela concorrência, a Competition and Markets Authority (CMA), encerrou em 31 de julho de 2025 uma investigação sobre o mercado de serviços de computação em nuvem. Entre suas recomendações, propôs que fossem priorizadas investigações sobre os dois maiores fornecedores, Microsoft e Amazon Web Services, dentro dos poderes britânicos para mercados digitais.

O caso europeu

Na União Europeia, a discussão avançou por outro caminho.

Em novembro de 2025, a Comissão Europeia abriu investigações para determinar se Amazon Web Services (AWS) e Microsoft Azure deveriam ser classificados como gatekeepers de serviços de nuvem pelo Digital Markets Act.

O nome inglês gatekeeper significa literalmente algo próximo de “guardião do portão”. Na versão portuguesa das instituições europeias aparece também como controlador de acesso.

A ideia é identificar empresas cujos serviços ocupam uma posição particularmente importante entre outras empresas e seus clientes.

Em 25 de junho de 2026, a Comissão comunicou sua posição preliminar: AWS e Azure deveriam, em sua avaliação inicial, receber essa classificação. O órgão descreveu os dois como o maior e o segundo maior serviço de nuvem na União Europeia e apontou, entre outros fatores, efeitos de dependência do fornecedor e custos elevados para trocar de serviço.

Mas a palavra preliminar não pode desaparecer da história.

Amazon e Microsoft receberam a oportunidade de responder antes de uma decisão final. Na verificação realizada para esta versão, em agosto de 2026, as páginas oficiais do Digital Markets Act ainda apresentam a medida de junho como posição preliminar.

Esse exemplo não demonstra que “a internet é centralizada”.

Seria uma conclusão muito maior do que as evidências permitem.

Mostra algo mais interessante:

uma infraestrutura pode ser distribuída em uma parte e concentrada em outra.

Milhões de computadores podem estar conectados enquanto determinada camada de serviços depende fortemente de poucos fornecedores.

Por isso, sempre falta uma palavra depois de “descentralizado”.

Descentralizado onde?

A pergunta de Marx continua material

É nesse ponto que Marx entra neste artigo.

Não porque tenha falado sobre datacenters.

Não falou.

Nem porque possamos substituir a palavra “fábrica” por “dados” em O Capital e declarar o problema resolvido.

No capítulo sobre cooperação, Marx analisa uma situação material: muitos trabalhadores atuando juntos dependem também de meios de produção reunidos numa escala correspondente.

Prédios, instrumentos, matérias-primas e outras condições de trabalho passam a ser utilizados conjuntamente. Marx relaciona expressamente a cooperação em grande escala à concentração dos meios de produção.

Meios de produção são, de maneira simples, os recursos necessários para produzir: máquinas, ferramentas, instalações, matérias-primas e outras condições materiais da atividade.

A análise de Marx pertence ao capitalismo de seu tempo.

A pergunta que trazemos ao presente é nossa:

quais meios são necessários para determinada atividade digital existir — e quem os controla?

Não precisamos chamar um datacenter de fábrica.

Basta reconhecer que um serviço digital também depende de condições materiais.

No capítulo sobre maquinaria, Marx oferece outra ideia útil: conhecer uma força da natureza não basta para utilizá-la produtivamente em grande escala; é preciso dispor dos meios materiais capazes de colocá-la em funcionamento.

A conclusão que podemos transportar para o presente é modesta:

conhecer uma técnica não significa possuir os meios necessários para executá-la.

Isso valia para uma máquina.

Vale para um programa.

Descentralizado onde?

Voltemos ao Bitcoin.

Um nó completo pode verificar blocos segundo suas próprias regras.

Uma pessoa pode controlar as próprias chaves.

O código do Bitcoin Core pode ser estudado, copiado e modificado.

Essas capacidades não são iguais, mas todas distribuem algum tipo de poder técnico.

Agora façamos outras perguntas.

Quem fabrica os processadores?

Quem produz equipamentos especializados para mineração?

Quem fornece conexão à internet?

Quem fornece energia?

Onde estão concentrados os serviços de custódia?

Quem desenvolve as interfaces usadas pela maior parte das pessoas?

Quem mantém o software?

Quem possui as máquinas utilizadas por cada participante?

Não há motivo para esperar que todas essas respostas apresentem o mesmo grau de concentração.

Por isso, a pergunta:

“Bitcoin é descentralizado?”

precisa frequentemente virar várias.

A validação é descentralizada em que medida?

E a mineração?

A custódia?

O desenvolvimento?

O hardware?

O acesso?

Contar nós pode responder algo importante sobre a distribuição de nós.

Não mede automaticamente todo o restante.

Imagine um bairro com milhares de casas atendidas por uma única companhia de eletricidade.

Contar as casas não informa quantas empresas fornecem energia.

A medida não está errada.

Ela apenas responde outra pergunta.

“Meu bitcoin” não significa “minha rede”

A palavra propriedade também pode causar confusão aqui.

Quando alguém diz:

“esses bitcoins são meus”

está normalmente falando de sua capacidade de controlar economicamente aqueles valores — diretamente pelas próprias chaves ou, em outros casos, por meio de alguma relação de custódia.

Isso não significa que cada bitcoin seja uma ação de uma empresa chamada Bitcoin.

Não existe essa empresa.

Possuir duas vezes mais BTC não faz alguém possuir duas vezes mais computadores da rede.

Também não faz os nós de outras pessoas aceitar regras diferentes.

Bitcoin e participação societária numa empresa são relações diferentes.

Uma pessoa pode controlar bitcoins sem controlar outros nós.

Pode executar um nó sem possuir o nó do vizinho.

Pode copiar o software sem copiar o computador em que outra pessoa o executa.

Pode participar da rede sem “possuir a rede” como se possuísse uma companhia.

A palavra propriedade, usada sozinha, esconde essas diferenças.

Propriedade também é poder de decidir

Agora imagine uma fotografia armazenada apenas no seu computador.

Seu controle pode ser bastante direto.

Coloque a mesma fotografia numa plataforma online.

O arquivo pode continuar sendo considerado seu, mas o acesso cotidiano passa a depender também da disponibilidade do serviço, das regras da plataforma, da sua conta e da infraestrutura da empresa.

A propriedade do conteúdo e o controle da infraestrutura não precisam estar nas mesmas mãos.

O mesmo problema aparece em outras escalas.

Uma comunidade pode utilizar software livre sem possuir o servidor onde determinada aplicação funciona.

Uma empresa pode possuir servidores e depender da rede elétrica de terceiros.

Uma pessoa pode controlar uma chave de Bitcoin e depender de um computador, internet e energia que não controla.

Por isso, três perguntas ajudam muito mais que uma:

Quem possui?

Quem consegue decidir?

De quem essa decisão depende para funcionar na prática?

Às vezes as respostas coincidem.

Muitas vezes não.

O que significa dizer que algo pertence a todos?

Chegamos então a uma frase bastante comum na cultura digital:

“Isso pertence a todos.”

Mas o que ela quer dizer?

Todos podem olhar?

Todos podem copiar?

Todos podem executar?

Todos podem modificar?

Todos são proprietários?

Todos participam das decisões?

Todos pagam os custos?

Todos recebem os benefícios?

São afirmações completamente diferentes.

Software livre oferece liberdades concretas sobre o programa: executar, estudar, modificar e redistribuir.

Isso importa.

Mas essas liberdades não distribuem automaticamente computadores, datacenters, energia ou propriedade sobre empresas.

Do mesmo modo, uma rede que permite validação independente distribui determinada capacidade técnica.

Ela não decide sozinha quem terá dinheiro, equipamento ou conhecimento para exercê-la.

Nesse ponto, a discussão já não é apenas sobre código.

É também sobre acesso.

Financiamento.

Infraestrutura.

Conhecimento.

Propriedade.

Capacidade de decisão.

Nada disso torna a tecnologia secundária.

Pelo contrário.

Permite identificar qual poder realmente foi distribuído pela tecnologia e qual permanece dependendo das relações existentes ao redor dela.

Talvez por isso a pergunta mais útil sobre uma infraestrutura digital não seja simplesmente:

“Isso é meu?”

Nem apenas:

“Isso é descentralizado?”

É uma pergunta um pouco mais incômoda:

quem possui capacidade real de acessar, manter, modificar e decidir sobre cada parte da infraestrutura — e quem continua dependendo da decisão dos outros?

Quando chegamos até aí, o mundo digital deixa de parecer imaterial.

Por baixo da tela reaparecem máquinas, energia, trabalho e propriedade.


Referências

Marx, Karl. O Capital, Livro I, capítulo 13 — “Cooperação”. Referência para cooperação, uso conjunto e concentração dos meios de produção.

Marx, Karl. O Capital, Livro I, capítulo 15 — “Maquinaria e grande indústria”. Referência para a relação entre forças naturais, técnica e aparato material.

Bitcoin Core. Repositório oficial do projeto. Referência para funcionamento geral do Bitcoin Core e licença MIT.

Bitcoin Developer Documentation. Block Chain e Wallets. Referência para validação independente e funcionamento de chaves e carteiras.

GNU Project. What is Free Software? Referência para as quatro liberdades essenciais do software livre.

Competition and Markets Authority. Cloud services market investigation. Decisão final publicada em 31 de julho de 2025.

European Commission. Investigações sobre computação em nuvem no Digital Markets Act e posição preliminar de 25 de junho de 2026 sobre AWS e Microsoft Azure.

International Energy Agency. Global Energy Review 2026 — Electricity demand. Referência para o crescimento do consumo elétrico dos datacenters em 2025.