CONCEITO

Valor de uso

Valor de uso é a utilidade de uma coisa, isto é, sua capacidade de satisfazer uma necessidade humana por meio de suas propriedades concretas. Na análise marxiana, ele constitui o conteúdo material da riqueza, mas não deve ser confundido com valor, valor de troca ou preço.

Economia política

ENTRADA FUNDAMENTAL

DEFINIÇÃO ESSENCIAL

Valor de uso é a utilidade concreta de uma coisa

Uma coisa pode ser útil porque possui determinadas propriedades capazes de satisfazer necessidades humanas, sejam elas ligadas à alimentação, abrigo, transporte, comunicação, produção ou inúmeras outras finalidades. Essa utilidade constitui uma determinação diferente daquela expressa pelo valor econômico da mercadoria.

Valor de uso designa a capacidade de uma coisa satisfazer alguma necessidade humana por meio de suas propriedades concretas. Essa utilidade realiza-se no uso ou consumo e depende das características do objeto e das formas sociais pelas quais essas características são aproveitadas. Na mercadoria, o valor de uso constitui seu conteúdo material e é condição para que ela possa ser socialmente útil a alguém, mas valor de uso e valor pertencem a determinações diferentes: a utilidade de uma coisa não mede a quantidade de trabalho socialmente necessário associada à sua produção.

Útil não significa necessariamente valioso no sentido marxiano

Uma coisa pode ser indispensável à vida e ainda assim não possuir valor em sentido marxiano, enquanto uma mercadoria pode possuir valor sem que sua utilidade determine diretamente essa magnitude. Utilidade e valor respondem a perguntas diferentes sobre o objeto.

EM TERMOS SIMPLES

Uma coisa tem valor de uso porque serve para alguma finalidade

Falar em valor de uso é perguntar o que uma coisa permite fazer ou qual necessidade pode satisfazer. Isso não significa perguntar quanto ela custa, por quanto pode ser vendida ou quanto trabalho foi necessário para produzi-la.

Valor de uso começa pela utilidade

Água pode matar a sede, uma ferramenta pode auxiliar determinada atividade e uma casa pode oferecer abrigo. Esses usos dependem das propriedades concretas dessas coisas e das necessidades que conseguem satisfazer. É essa dimensão útil e qualitativa que a categoria valor de uso procura expressar.

A utilidade se realiza no uso ou no consumo

Uma coisa não satisfaz uma necessidade apenas por existir abstratamente: suas propriedades precisam ser efetivamente aproveitáveis em alguma prática humana. Um alimento realiza seu valor de uso quando é consumido, enquanto uma máquina o realiza ao participar de processos para os quais foi construída. O modo de realização varia conforme a natureza do valor de uso considerado.

Ser mais útil não significa possuir automaticamente mais valor

Duas coisas podem possuir utilidades completamente diferentes, e uma delas pode ser muito mais importante para determinada necessidade sem que isso estabeleça diretamente suas magnitudes de valor ou seus preços. Valor de uso é uma determinação qualitativa da utilidade, enquanto valor e preço exigem outras relações econômicas para serem explicados.

COMO FUNCIONA

Como propriedades concretas se tornam socialmente úteis

Um valor de uso existe porque determinadas propriedades de uma coisa permitem satisfazer necessidades humanas. Mas aquilo que pode ser utilizado, para qual finalidade e de que maneira depende também dos conhecimentos, práticas e condições históricas sob as quais essas propriedades são apropriadas.

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Propriedades concretas tornam determinados usos possíveis

Toda coisa útil possui características que permitem algum tipo de utilização: resistência, composição, forma, capacidade de armazenar, transportar, alimentar, comunicar ou realizar outra função. Essas propriedades estabelecem possibilidades concretas de uso e impedem que qualquer objeto satisfaça arbitrariamente qualquer necessidade. Por isso, valor de uso depende das qualidades efetivas da coisa e da capacidade de essas qualidades servirem a alguma finalidade humana.

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Necessidades e conhecimentos também se transformam historicamente

As propriedades de uma coisa podem existir antes que uma sociedade conheça determinado uso para elas. Novos conhecimentos, técnicas e necessidades podem revelar ou criar maneiras de utilizar materiais, recursos e objetos que anteriormente não desempenhavam aquela função. Assim, o valor de uso possui uma base concreta, mas as formas pelas quais essa utilidade é reconhecida e realizada também possuem uma dimensão histórica e social.

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O trabalho concreto produz valores de uso, mas nem todo valor de uso é produto do trabalho

Quando pessoas transformam materiais por meio de atividades específicas, o trabalho concreto produz valores de uso determinados: construir uma casa, cultivar alimentos ou fabricar uma ferramenta são trabalhos qualitativamente diferentes porque produzem utilidades diferentes. Entretanto, a natureza também pode fornecer coisas úteis sem que tenham sido produzidas pelo trabalho humano. Portanto, ser valor de uso não significa automaticamente ser produto do trabalho, possuir valor ou assumir a forma mercadoria.

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O mesmo valor de uso pode existir sob formas sociais diferentes

Uma coisa útil pode ser consumida diretamente por quem a produziu, distribuída coletivamente, oferecida gratuitamente ou produzida para venda como mercadoria. Sua utilidade concreta pode permanecer semelhante enquanto muda a relação social pela qual ela é produzida e apropriada. Por isso, valor de uso constitui o conteúdo útil de uma coisa, mas não determina sozinho a forma econômica e social que essa coisa assume.

Utilidade e forma social precisam ser analisadas separadamente

Saber para que uma coisa serve não basta para determinar se ela é mercadoria, qual valor possui, por que tem determinado preço ou sob quais relações foi produzida. O valor de uso descreve sua dimensão útil; outras categorias são necessárias para compreender sua forma econômica e social.

DISTINÇÕES IMPORTANTES

Valor de uso não é sinônimo de valor, valor de troca ou preço

A utilidade concreta de uma coisa pode estar relacionada à sua circulação econômica, mas não determina automaticamente quanto valor ela possui, em que proporção é trocada ou qual preço alcança. Separar essas categorias é indispensável para compreender a mercadoria sem reduzir toda relação econômica à utilidade.

Valor de uso não é valor

Valor de uso diz respeito à utilidade concreta de uma coisa, enquanto valor é uma determinação social da mercadoria relacionada ao trabalho humano abstrato e ao tempo de trabalho socialmente necessário. Uma coisa pode ser extremamente útil sem possuir valor em sentido marxiano, e uma mercadoria pode possuir valor sem que sua magnitude seja determinada pelo grau de utilidade que alguém lhe atribui. Portanto, utilidade e valor pertencem a dimensões diferentes da análise.

Valor de uso não é valor de troca

Valor de troca diz respeito à forma pela qual uma mercadoria se expressa quantitativamente em relação a outras mercadorias, enquanto valor de uso corresponde à sua utilidade qualitativamente determinada. Uma quantidade de trigo e uma quantidade de tecido podem participar de uma relação de troca apesar de possuírem usos completamente diferentes. Assim, a utilidade de uma mercadoria e a proporção em que ela se troca não são a mesma determinação econômica.

Valor de uso não é preço

Preço é uma expressão monetária associada à mercadoria, enquanto valor de uso responde à pergunta sobre para que aquela coisa serve. Um objeto pode ser muito útil e possuir preço baixo, enquanto outro pode alcançar preço elevado sem ser mais útil em qualquer sentido geral. Por isso, preço não mede diretamente utilidade, e utilidade não permite deduzir automaticamente o preço de uma coisa.

Valor de uso marxiano não é uma teoria de utilidade marginal

Em Marx, valor de uso identifica a dimensão útil e qualitativa das coisas e constitui uma condição material da mercadoria; a categoria não é apresentada como fundamento subjetivo da magnitude do valor. Teorias de utilidade marginal, desenvolvidas em outra tradição econômica, procuram explicar preços e avaliações a partir da utilidade atribuída a unidades adicionais sob condições de escassez. Portanto, usar a palavra “utilidade” nos dois contextos não significa que Marx derive o valor da utilidade subjetiva ou marginal.

LIMITES E CONTROVÉRSIAS

Reconhecer uma utilidade não resolve a forma econômica de uma coisa

Valor de uso identifica uma dimensão concreta da utilidade, mas essa utilidade não deve ser transformada numa explicação automática de valor, preço ou forma mercadoria. Necessidades mudam historicamente, coisas úteis podem existir sem serem produtos do trabalho e novas formas técnicas podem apresentar usos reais sem que sua determinação econômica esteja previamente resolvida.

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A utilidade possui uma dimensão histórica e social

As propriedades concretas de uma coisa estabelecem possibilidades reais de uso, mas as necessidades humanas, os conhecimentos disponíveis e as práticas pelas quais essas propriedades são aproveitadas mudam historicamente. Um material ou tecnologia pode adquirir usos que anteriormente não eram conhecidos ou socialmente relevantes. Portanto, valor de uso não deve ser tratado nem como preferência puramente subjetiva nem como utilidade social completamente fixa e independente da história.

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Nem todo valor de uso é produto do trabalho

A natureza pode fornecer coisas úteis que satisfazem necessidades humanas sem terem sido produzidas pelo trabalho, enquanto o trabalho concreto também pode transformar materiais e produzir novos valores de uso. Isso significa que a existência de utilidade não demonstra, por si só, a existência de valor em sentido marxiano, pois esta última categoria exige determinações relacionadas à produção mercantil e ao trabalho humano abstrato.

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A natureza digital não impede nem demonstra valor de uso

Uma forma digital pode desempenhar funções concretas — armazenar informação, permitir comunicação, executar cálculos ou coordenar determinadas ações — sem possuir as mesmas propriedades de um objeto físico. O caráter digital, portanto, não decide sozinho a questão: é preciso identificar quais necessidades são efetivamente satisfeitas e quais propriedades técnicas tornam esses usos possíveis, sem deduzir daí automaticamente valor, mercadoria ou preço.

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Usos do Bitcoin não demonstram automaticamente valor, mercadoria ou dinheiro

Bitcoin pode ser utilizado para transferir unidades sem depender necessariamente de um custodiante, manter controle direto sobre determinadas condições de gasto, verificar regras monetárias e realizar transações sob condições específicas de resistência à censura. Essas funções podem constituir usos economicamente relevantes, mas demonstrar utilidades do Bitcoin não resolve automaticamente se bitcoin possui valor em sentido marxiano, se assume a forma mercadoria ou se desempenha socialmente a forma dinheiro.

Utilidade é uma pergunta; forma econômica é outra

Saber que uma coisa satisfaz determinada necessidade permite identificar sua dimensão útil, mas não determina como foi produzida, se contém valor, por que possui determinado preço ou qual função social assume na circulação. Valor de uso é indispensável à análise, mas não substitui as demais categorias da economia política.

CONTINUE A EXPLORAÇÃO

Conceitos relacionados

Valor de uso corresponde à dimensão útil das coisas, mas sua análise se conecta diretamente às categorias de valor, troca, mercadoria e trabalho. As entradas abaixo ajudam a compreender como utilidade, produção e forma econômica se relacionam sem serem reduzidas umas às outras.

Valor

Determinação social da mercadoria relacionada ao trabalho humano abstrato e ao tempo de trabalho socialmente necessário. Valor de uso e valor coexistem na mercadoria, mas a utilidade de uma coisa não determina diretamente sua magnitude de valor.

Valor de troca

Forma quantitativa pela qual uma mercadoria expressa seu valor em relação a outra. Enquanto valor de uso diz respeito às qualidades úteis de uma coisa, o valor de troca aparece numa relação de equivalência entre mercadorias qualitativamente diferentes.

Mercadoria

Forma social em que um produto útil destinado a outros entra em relações de troca e apresenta a dupla determinação de valor de uso e valor. Todo objeto que assume a forma mercadoria precisa possuir valor de uso, mas nem todo valor de uso é mercadoria.

Trabalho

Atividade humana orientada a uma finalidade que, em sua forma concreta, produz valores de uso determinados. Entretanto, a natureza também pode fornecer coisas úteis sem trabalho humano, razão pela qual valor de uso e produto do trabalho não são categorias equivalentes.

Produtividade

Relação entre trabalho, tempo e quantidade de valores de uso produzidos sob determinadas condições. O aumento da produtividade pode ampliar fortemente a riqueza material disponível, embora isso não implique aumento proporcional do valor de cada unidade produzida.

Bitcoin

Protocolo, rede e unidade monetária que oferece capacidades como transferência, verificabilidade e controle direto de determinadas condições de gasto. Essas propriedades podem sustentar valores de uso concretos para diferentes agentes, mas demonstrar utilidade não resolve automaticamente a determinação de bitcoin como mercadoria, valor ou dinheiro em sentido marxiano.

FONTES E DOCUMENTAÇÃO

Referências para aprofundamento

Marx desenvolve o valor de uso em conexão com as propriedades úteis das coisas, a mercadoria, o trabalho concreto e o processo de trabalho. As referências abaixo permitem compreender por que utilidade constitui uma dimensão indispensável da riqueza material sem se tornar, por isso, medida do valor econômico.

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O Capital, Livro I — Os dois fatores da mercadoria

Marx inicia a análise da mercadoria pela sua dimensão útil e apresenta o valor de uso como uma coisa capaz de satisfazer necessidades humanas por meio de suas propriedades. A passagem também estabelece uma distinção fundamental: os valores de uso constituem o conteúdo material da riqueza, mas a magnitude do valor da mercadoria não é determinada diretamente por sua utilidade.

Karl Marx · O Capital · Livro I · Capítulo 1, seção 1

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O Capital, Livro I — O duplo caráter do trabalho representado nas mercadorias

Marx relaciona trabalhos concretos qualitativamente diferentes à produção de valores de uso também diferentes e distingue essa dimensão do trabalho de sua determinação abstrata na produção de valor. A referência é fundamental para compreender que trabalho concreto produz utilidades determinadas, enquanto trabalho abstrato pertence a outro nível da análise da mercadoria.

Karl Marx · O Capital · Livro I · Capítulo 1, seção 2

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O Capital, Livro I — O processo de trabalho

Marx examina o trabalho como atividade orientada a uma finalidade na qual seres humanos atuam sobre objetos utilizando meios de trabalho. O processo resulta em valores de uso, mas a análise também permite compreender que a produção de utilidades é uma determinação material do trabalho que pode existir sob formas sociais de produção diferentes.

Karl Marx · O Capital · Livro I · Capítulo 5, seção 1

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Para a Crítica da Economia Política

Nesta obra anterior a O Capital, Marx já desenvolve a análise da mercadoria distinguindo seu caráter útil das determinações de valor e troca. A leitura ajuda a situar o valor de uso dentro do percurso que leva da mercadoria ao dinheiro e mostra por que utilidade, valor e expressão na troca precisam ser reconstruídos como categorias diferentes.

Karl Marx · Para a Crítica da Economia Política · 1859

Valor de uso é indispensável, mas não explica sozinho a forma econômica

A utilidade concreta permite compreender para que uma coisa serve e como pode participar da riqueza material, mas não determina por si mesma se essa coisa é mercadoria, qual valor possui ou por que alcança determinado preço. A análise precisa preservar a diferença entre conteúdo útil e forma social.